Este
é o primeiro artigo de uma serie de cinco que discorreram sobre a o benefício
indireto da adubação de pastagem sobre a qualidade da forragem. Nos dois
últimos artigos da série abordaremos o efeito da adubação no desempenho animal.
Neste artigo será discorrido sobre o teor de proteína bruta e produção de biomassa.
A
intensificação do sistema de produção baseado em pastagens permite bom
resultado produtivo. Nesse processo, o homem como manejador consegue interferir-nos
vários fatores naturais que interagem entre si, clima-solo-planta-animal, potencializando
a produtividade ao eliminar condições não desejáveis. Da interação solo-planta-animais
surgem situações especificas, como a correção da fertilidade do solo, que podem
influenciar a oferta de nutrientes provenientes do solo para as plantas e
destas aos animais (CORSI, 1994). Entende-se que ao deixar a forragem bem
nutrida, o homem, estará proporcionando isto também para o animal ao consumir
esta pastagem. Contudo, os animais mantidos em pastagens fertilizadas são menos
dependentes de suplementação, seja proteico-energética e até mesmo mineral (DANÉS,
2010; SILVA, 2005).
A
literatura dispõe de uma vasta gama de estudos demonstrando que a produção forrageira
é fortemente incrementada pela correção da fertilidade do solo. No entanto, são
poucas as investigações direcionadas a medir o ganho individual dos animais que
se alimentam de pastagem adubada. Em virtude disso objetivou-se no presente
trabalho revisar em estudos científicos o efeito da adubação sobre a qualidade
da forragem e o desempenho de bovinos criados a pasto.
Proteínas
são macromoléculas, formadas por estruturas menores, chamados aminoácidos,
presentes nas células com funções diversas como, componentes estruturais,
armazenamento de informações genéticas, recepção de estímulos hormonais,
funções enzimáticas, energéticas e hormonais. Alguns aminoácidos o corpo animal
é capaz de produzir, são conhecidos como não essenciais, outros são necessários
que sejam obtidos através dos alimentos, chamados de essenciais. A proteína é
um nutriente de alto impacto no desempenho produtivo dos animais (SANTOS;
PEDROSO, 2011).
O
nitrogênio (N) faz parte das proteínas, e é demandado em grandes quantias pela
planta, atuando também no metabolismo, na estrutura vegetal e síntese de clorofila.
Este elemento é o principal constituinte das proteínas, e compõe, em média 16%
destas moléculas, logo o teor de N na dieta interfere diretamente no equilíbrio
da microbiota ruminal, que depende deste para produzir proteína microbiana.
Pela sua participação na molécula de clorofila, o nitrogênio interfere diretamente
no processo fotossintético e consequentemente na produção de biomassa (MALAVOLTA,
1980).
O
potássio (K) é o cátion em maior concentração nas plantas, portanto apresenta relevantes
funções fisiológicas e metabólicas como ativação de enzimas, fotossíntese,
translocação de assimilados, absorção de nitrogênio e síntese protéica. Em
vista da alta demanda torna-se limitante em sistema de utilização intensiva do
solo. Segundo Primavesi et al. (2006), a adubação nitrogenada tem, muitas
vezes, apresentado respostas produtivas abaixo das esperadas, em virtude dos
inadequados níveis de potássio, que por ser demandado em altas concentrações,
assim como o nitrogênio, acaba por limitar a produção de massa pela forragem,
quando este nutriente não é suprido adequadamente.
O
fósforo (P) está presente nas plantas, principalmente na forma de ortofosfato e
sua principal função é no transporte de energia, para as atividades metabólicas.
De maneira análoga ao nitrogênio ao fazer parte da clorofila e proteínas, o fósforo
é necessário para que ocorra a síntese protéica e a ativação de uma série de
enzimas, e consequentemente na produção de massa pelos vegetais (MARSCHNER,
1995). Patês et al. (2008), descreveram que a ausência de P na adubação limitou
a produção de matéria seca (MS) e proteína bruta (PB) do capim-tanzânia em casa
de vegetação.
O
enxofre (S) é requerido pelas plantas para a síntese de proteínas, haja vista
que faz parte da estrutura de dois aminoácidos essenciais, metionina e
cisteína, os quais podem center cerca de 90% do total de enxofre na planta e
estes aminoácidos compõe todas as proteínas dos seres vivos (MALAVOLTA, 1980).
Vitti et al. (1986) também citaram que o enxofre faz parte de compostos
relacionados a sabores e odores, importantes na aceitabilidade e
consequentemente consumo da forragem pelos animais.
A
deficiência de S nos solos compromete o desenvolvimento e a qualidade das
forrageiras (RODRIGUES, Rosane et al., 2005). Nada obstante, alguns autores
excluem a adubação sulfatada ao avaliar o potencial da produção de PB com a
melhora na fertilidade do solo, limitando em partes, o acúmulo de PB na planta
pela deficiência de S. Todavia, Costa et al. (2010), obtiveram aumento linear
na extração de S ao nutrir melhor a planta com N.
Nitrogênio
é o elemento mais demandado para a resposta de plantas forrageiras, porém ao
realizar apenas adubação nitrogenada os demais nutrientes passam a ser
limitantes, conforme a lei do mínimo proposta por Liebig em 1843 (RAIJ, 1991).
O aumento na produção da forragem, em resposta à fertilização com N, implica
também na aplicação de outros nutrientes, como potássio e fósforo, além da
adoção de práticas adequadas de manejo (ANDRADE et al., 2000). No entanto, Primavesi
et al. (2008), não observaram variação na PB com doses crescentes de fósforo (0
até 210 kg/ha/ano de P2O5) e potássio (0 até 300 kg/ha/ano de K2O) associado à
fertilização nitrogenada, de modo que a PB média geral foi 15,1%, onde as dose
de N (0 até 300 kg/ha/ano de N) foram
significativas (nível de 1%) em aumentar a PB.
Desta
forma, nas pesquisas revisadas as doses de potássio e fósforo foram proporcionais
às análises de solo e à fertilização nitrogenada. Mas devido à dificuldade
comparativa dos três ou apenas dois elementos em conjunto o teor PB será
estudado em função das doses de nitrogênio, assim como os demais comparativos,
nos próximos artigos, sobre a variação da adubação neste estudo.
A
fonte do fertilizante nitrogenado foi indicado, por Primavesi et al. (2004),
como influenciador do percentual de PB da forragem. Os pesquisadores constataram
aumento na média de PB em 11,4% (14,7% x 13,2%) quando usou nitrato de amônio em
substituição da uréia. De acordo com os autores, o aumento de proteína bruta possivelmente
está relacionado com a perda de amônia (NH3) por volatilização da
uréia, já que no nitrato a participação da NH3 é menor. Em vista
dessa variação, padronizou-se avaliar trabalhos que usaram uréia com fonte de
nitrogênio.
Os
resultados da análise de regressão (FIG. 1) revelaram efeito quadrático
positivo das doses de N sobre a produção de PB, ou seja, no início da curva o
aumento de PB é linear, porém com taxas maiores de N observa-se pouco
incremento de proteína bruta. Pela equação de regressão a PB alcança 20,6%, com
taxa de N acima de 220 kg/ha/ciclo, onde o ciclo corresponde ao espaço de tempo
entre dois cortes da forragem.
Figura
1: Efeito da adubação nitrogenada no teor de proteína bruta (%) de forragens
tropicais.
Salienta-se
que o teor de PB nas cultivares estudadas sem adubação nitrogenada, ainda que
contemplando boa disponibilidade de água no solo, ficou próximo de 7%, nível
crítico para o atendimento das necessidades nutricionais da microbiota dos
ruminantes, conforme Minson et al. (1994). Os autores afirmaram que teores de
PB abaixo deste limite ocasiona queda na ingestão de matéria seca pelos
animais, devido à carência de nitrogênio aos microrganismos ruminais. Com isso,
se obtêm resultados com suplementação proteica mesmo durante o período das
águas em pastagens cultivadas em solos de baixa fertilidade (RESENDE et al.,
2011).
Segundo
Oliveira et al. (2011), a proporção de PB na matéria seca do capim-coastcross (Cynodon
dactylon), incrementou com altas doses de nitrogênio, quando não houve limitação
de água no solo, onde a PB atingiu 24,2% com adubação de 400 kg/ha/ano de N e 28
dias de intervalos entre ciclos. Com essas mesmas condições Henriques et al.
(2007), contabilizaram 25,2% de PB%, em Setaria sp. Estudos também relatam
teores acima de 18% de PB em pastagens dos gêneros Panicum e Brachiaria (SOUZA
et al., 2006; ALVES et al., 2008). A maior taxa de adubação nitrogenada e menor
frequência de colheitas melhora a relação de folhas/caules, sendo que as folhas
são mais ricas em PB. Altas doses de adubação nitrogenada nem sempre resultam
em acréscimo de PB, dado que o N também é eficiente em aumentar a produção de
matéria seca, ocorrendo diluição da PB (VIANA et al., 2011).
A
adubação nitrogenada contribui com a elevação do nitrogênio não proteico (NNP),
correspondente à fração A, segundo a classificação de Cornell Net Carbohydrate
and Protein System (CNCPS) para proteína bruta. Ao encontro que as frações
associadas à parede celular, B3 e C, proteína de degradação lenta e
indigestível respectivamente, reduziram sua participação na PB. Ademais, as
pesquisas evidenciaram pequenas alterações das frações de digestão ruminal rápida
e intermediaria, respectivamente B1 e B2, quando a planta foi adubada
(HENRIQUES, et al., 2007; JONHSON et al. 2001). Intervalos entre ciclos longos
restringem o NNP e aumentaram a participação das frações B3 e C (HENRIQUES, et
al., 2007). Contudo, a adubação e o ponto de colheita da pastagem permitem aumentar
a PB aproveitável pelos ruminantes (FIG. 2).
Figura 2 - Efeito da
adubação nitrogenada nas frações da proteína bruta (% da PB) dos capins Tifton
85 e Grama Estrela.
O
resultado encontrado por Jonhson et al. (2001), demonstrado na FIG. 2, confirma
o fato das plantas terem capacidade de absorver mais nutrientes que suas
necessidades, é o chamado consumo de luxo. A planta, na presença abundante
de nutrientes no solo, armazena os mesmos no vacúolo na sua forma mais simples,
nitrato (NNP) ao invés de proteínas, como estratégia para serem usados em possível
situação de estresse. Quando ocorre o consumo de luxo pelas culturas, há
possibilidade de perdas econômicas, pois o produtor pode ter investido para que
o aumento destes teores fosse efetivado por meio de aplicação de fertilizantes
e corretivos, assim, se a planta apresentar concentrações superiores de
nutrientes sem crescer a produção, significa ineficiência produtiva (PRIMAVESI,
et al., 2004).
Primavesi,
et al. (2006), notificaram, em capim-marandu, aumento expressivo de nitrato
(706 mg/kg MS) na dose de 200 kg/ha/ciclo de N em comparação com as demais
taxas, 0; 50 e 100 kg/ha que apresentaram respectivamente, 223; 302 e 276 mg/kg
MS de nitrato nas folhas. Os mesmos autores indicaram que o K aumenta a
eficiência de uso do N com a maximização da produção de massa, baixos teores de
K proporciona aumento da concentração dos compostos de N solúvel nas plantas.
A
alta variação na produção de forragem entre os experimentos fez com que
ocorresse muita dispersão dos dados (R2 38,00%). Apesar disso, denota-se nas
pesquisas analisadas a tendência da curva (FIG. 3) de estabilidade da produção
mesmo com doses nitrogenadas crescentes, ou seja, a eficiência de uso do N é
menor para doses mais expressivas. No caso desta análise em especifico a curva de
regressão indica que a máxima forragem acumulada (FA) em MS é 2443,3
kg/ha/ciclo, ao nível de 173,6 kg/ha/ciclo de N (FIG. 3). Contrariando essa
informação, fertilizando com até 200 kg/ha/ciclo de N Primavesi, et al. (2004)
e Primavesi, et al. (2006), observam produção de massa seca, dos capins Marandu
e Coastcross, de 3082 e 3448 kg/ha/ciclo, respectivamente.
Figura
3 - Efeito da adubação nitrogenada na produção de massa de forragem acumulada -
FA (kg MS produzida no ciclo por kg N aplicado).
Verifica-se,
através dos dados exposto na FIG. 03, que a produção da cultura não aumenta proporcionalmente
com as dosagens do adubo utilizado, logo o acréscimo não é proporcional ao
incremento do fator de produção, sendo neste caso o fertilizante nitrogenado.
Em vista disso, um rendimento equivalente a 90% da produção máxima (2199,0
kg/ha/ciclo de MS) é considerado o nível econômico e foi conseguido com a
aplicação nitrogenada de 102,2 kg/ha/ciclo, havendo redução de 58,9% na quantia
de nitrogênio comparado com a fertilização para produção máxima (RAIJ, 1991). Diante
do exposto pode-se inferir que a melhor estratégia passa a ser, fertilizar áreas
maiores de pasto com doses menores de fertilizante em relação a pequenas áreas
com altas quantias de N.
Com
base nos resultados compilados fica evidente a necessidade de adubações
nitrogenadas para que se busquem concentrações superiores de proteína bruta (PB)
no extrato pastejável pelos animais. Entretanto, o consciente uso dos
fertilizantes se faz necessário para melhorar a eficiência da técnica de
adubação.
Este
texto foi extraído de:
RABELO,
D. M. L. Efeito da adubação na qualidade
da pastagem e no desempenho de bovinos. Monografia (Pós-graduação em
Nutrição e Alimentação de Ruminantes) – Faculdades Associadas de Uberaba, FAZU,
Uberaba, 15 f. 2016.


