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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Benefícios da Adubação Orgânica de Pastagem

Um número apreciável de estudos e pesquisas estão sendo disponibilizados para o mercado da agricultura e pecuária, dentre esses novos assuntos, tem sido destaque o uso dos adubos orgânicos. O processo de adubação orgânica é definido pela literatura geral, como sendo: o uso de rejeitos orgânicos para promover a melhoria das qualidades químicas, físicas e biológicas do solo proporcionando maior desenvolvimento das plantas destacando neste texto como exemplo, a pastagem.

Elencando alguns pontos positivos sobre o assunto, a adubação à base dos orgânicos desenvolve o equilíbrio com o meio ambiente trabalhando com uma produção no pilar da sustentabilidade, outro fator de destaque é seu custo mais aprazível para o bolso dos empreendedores do ramo.

Considerando o investimento elevado dos fertilizantes químicos os produtores têm buscado alternativas nos métodos de fertilização do solo. Assim, cresce notoriamente o número de produtores que praticam a técnica simples de reutilização de compostos orgânicos como fonte de nutrientes básicos do solo. Remetendo novamente está técnica aos benefícios ambientais uma vez que, esse processo a princípio simples, evita que os resíduos anteriormente destinados de forma ambientalmente incorreta sejam a parti dessa técnica incorporados ao sistema produtivo sem danos ao solo ou recursos hídricos, promovendo uma ciclagem desses nutrientes na cadeia de produção.

O processo da adubação orgânica permite que as moléculas orgânicas sejam decompostas por diversas classes de microrganismos presentes no solo, que utilizam das substâncias presentes nesses compostos para se multiplicarem dando mais vida ao solo. Um solo com maior atividade biológica favorece a produção de fito-hormônios, importantes para a defesa das plantas contra as pragas e patógenos sendo aliados importantes no desenvolvimento da pastagem.

Os nutrientes disponibilizados no processo de decomposição são liberados gradativamente pelos microrganismos no solo, sendo logo absorvidos pelas plantas conforme sua demanda evitando perdas de nutrientes. Deve ser ressaltado que o húmus, obtido no processo de degradação dos compostos orgânicos, é uma das substâncias mais estáveis da matéria orgânica. Em contato com o solo, os ácidos húmicos e fúlvicos aumentam o número de microporos resultando em maior aeração e armazenamento de água neste solo.

Solos com essas características são menos propensos a compactação e processos erosivos, pois as substancias húmicas são ricas em cargas elétricas, elevando a capacidade dessa área de pastagem em reter nutrientes tornando esse solo com maior capacidade de troca catiônica - CTC e complexar metais pesados, como o alumínio que é toxico as raízes.


Principais fontes de adubos orgânicos

Os adubos orgânicos são obtidos por meio de matéria de origem animal ou vegetal como: cama de frango e/ou galinha (Figura 1), dejetos de suínos, água de limpeza da ordenha, esterco de bovinos oriundos de curais, confinamentos e áreas de descanso, dentre outras. São também consideradas fontes produtoras de resíduos a agroindústria como exemplo, a água residuária de frigoríficos e/ou graxarias, vinhaça, torta de filtro, cinzas, casca de café, serragem e restos de vegetais diversos.

 

Pasto após distribuição de cama de frango

Figura 1: Pasto após distribuição de cama de frango.

Tanto na matéria de origem animal como na vegetal esses produtos são considerados subprodutos/rejeitos, considerando o uso crescente desses rejeitos na adubação orgânica, permite que sejam reaproveitados no sistema produtivo, tornando seu custo de aquisição menor quando comparado aos fertilizantes convencionais.

O processo de reutilização desses rejeitos pode ser in natura na pastagem como o esterco ou pode ser beneficiado no processo da compostagem. Quando utilizamos o processo da compostagem é possível reduzir ou até eliminar possíveis contaminações por patógenos de plantas ou humanos essa metodologia possui uma fase termofílica em que a temperatura ultrapassa 65 ºC eliminando os patógenos, obtendo um produto estável ao ser destinado a pastagem.

Entretanto, os resíduos da agroindústria na maioria das vezes devem passar pelo processo de compostagem, esses subprodutos apresentam quando na forma in natura uma alta concentração de carbono e baixo teor de nitrogênio que dificulta a liberação dos nutrientes no solo, quando são compostados essa relação diminui e temos como efeito uma liberação mais rápida dos nutrientes para as forrageiras.

Para o uso da adubação orgânica com maior sucesso deve ser avaliado a fonte desses nutrientes, sabendo que o teor de componentes dos estercos é variável devido à fatores como o número de animais no lote, tempo de uso ou acúmulo do esterco na área, higienização do ambiente, alimentação dos animais e presença de materiais inertes.

Portanto, é necessário fazer análise química dos composto orgânicos rotineiramente. Essa avaliação dos rejeitos vai garantir segurança para dosar a quantidade de adubo orgânico que será exigida em um solo, permitindo saber sua composição química e assim correlacionar com a demanda da pastagem que pretende aplicar essa adubação. Na Tabela 1, são apresentados valores de referência da composição dos dejetos de animais frequentemente utilizados como fonte de fertilizantes.

Composição média dos estercos de frangos, bovinos, suínos e da pastagem

 

Recomendações

Estudo de caso:

Miguel é um pecuarista que pretende alcançar a taxa de lotação de 5 UA/ha (5 unidades de animais de 450 kg, em um hectare) durante todo período chuvoso. Supondo que sua propriedade fique localizada no cerrado brasileiro, cujo o período chuvoso ocorre durante seis meses do ano em média e que os teores de fósforo no solo são extremamente baixos. Qual a quantidade de forragem à ser produzida? Quanto de cama de frango ele irá precisar para adubar o solo e obter tal lotação?

Fazendo as contas:

1.    Bovinos consomem em média 2,7% do seu peso vivo diariamente, ou seja, cada UA consome 12,2 kg (450 x 2,7%) de pasto por dia. Logo, 5 UA consumirá 61 kg/dia ou 11 toneladas de pasto (61 kg x 180 dias ÷ 1000 kg/tonelada) em 6 meses na área de 1 ha.

 

Quanto de nutrientes precisa para produzir 11 toneladas de pastagem?

2.    Para cada 1 tonelada produzida são demandados:

2.1.        20 kg de Nitrogênio - N,

2.2.        2,8 kg de Fósforo – P,

2.3.        18 kg de Potássio - K (Tabela 1).

Logo: a extração da pastagem durante a estação chuvosa será:

2.4.        220 kg/ha de N (11 x 20),

2.5.        30,8 kg/ha de P (11 x 2,8) e

2.6.        198 kg/ha de K (11 x 18).

 

Quanto de cama de frango (CF) demanda para fornecer os nutrientes para a pastagem?

3.    Cada tonelada de cama de frango fornece em média

3.1.        28 kg de N,

3.2.        30 kg de P e

3.3.        18 kg de K (Tabela 1).

Logo:

3.4.        Para fornecer 220 kg de N precisa de 7,9 ton./ha (220 ÷ 28) de CF.

3.5.        Para fornecer 30,8 kg de P precisa de 1,0 ton./ha (30,8 ÷ 30) de CF.

3.6.        Para fornecer 198 kg de K precisa de 11 ton./ha (198 ÷ 18) de CF.

Considerações:

Solos com alta concentração P, a dose máxima de cama de frango deve ser limitada pela quantidade de P fornecido, seguindo o estudo de caso demonstrado a média é de 1,0 tonelada/ha, doses acima desta média sugerida acarreta uma grande perda desse nutriente no sistema de cultivo.

Processos que não observam está avaliação podem permitir o carreamento deste elemento para cursos hídricos, resultando em eutrofização do meio, consequentemente a morte de peixes e demais seres vivos presentes. Para finalizar devemos ressaltar que mesmo se tratando de uma adubação orgânica, que é um processo mais próximo do natural reaproveitando os dejetos, devemos seguir critérios técnicos para que a boa intenção não seja um problema ao equilíbrio do meio.

Quando trabalhamos com situações onde o elemento fósforo é baixo, como é o caso da fazenda do Sr. Miguel por se localiza em solo de cerrado, neste caso a dose de cama de frango deve ser limitada pelo fornecimento de N.  Nesta situação observa-se que o elemento N passou a ser considerado o mais contaminante para o meio por apresentar altas taxas de perda por volatilização e lixiviação sendo o agente causador de contaminação das águas subterrâneas.

Seguindo as informações com os dados do estudo de caso, a dose de cama de frango para atender a demanda de N é 7,9 ton./ha. Essa dose supre todo N, considerando o nutriente P a necessidade é de 31Kg/ha nesse, levando em consideração as condições do solo da propriedade do Sr. Miguel não há impactos causados pelo excesso de 206 Kg/ha P (237 kg/ha fornecidos em 7,9 tonelada de CF, menos 31 kg/ha demandado pela pastagem). Contudo o fornecimento do elemento K ainda fica abaixo do desejado, podendo para este o produtor suprir a pastagem com adubação a base de cloreto de potássio 60%.  Logo a adubação com 7,9/t de CF atende à demanda de 142 Kg de K (7,9 x 18) sendo o desejado de 198 Kg/ha, devendo a adubação complementar fornece 56 Kg de K.

 

Fazendo as contas do potássio (K):

4.    Para fornecer 56 kg de K precisa de 93 kg/ha (56 ÷ 60%) de cloreto de potássio.

Em síntese para o estudo de caso na propriedade do Sr. Miguel ao longo do período chuvoso deveram ser distribuídas 7,9 toneladas de cama de frango e 93 kg de cloreto de potássio em cada hectare que pretende manter 5 animais com o peso médio de 15@.

 

Época de aplicação

Para que haja uma degradação elevada dos nutrientes no solo os microrganismos dependem de uma quantidade alta de umidade neste ambiente. Nessa condição o período chuvoso torna a época ideal para realizar a adubação orgânica com resultado positivo. Quando a distribuição dos fertilizantes orgânicos é realizada em períodos que com baixa disponibilidade de água no solo parte considerável do nitrogênio é perdida por volatilização, umas vez que sob condições de solo seco as bactérias não conseguem utilizar esse nutriente na mesma velocidade que em condições de solo úmido.

Avaliando o processo de armazenamento e transporte dos estercos a época ideal para realizar estas operações é durante a estação seca do ano, tornando o processo menos oneroso. Uma dica é fazer amontoados de estercos na área onde será aplicado ou em um pátio que não prejudique as atividades rotineiras da propriedade nesse processo ocorre uma compostagem dos nutrientes e utilização se dará com uma matéria mais estabilizada com menor relação de carbono e nitrogênio.

Os adubos orgânicos sólidos são distribuídos á lanço na área a ser fertilizada. Enquanto que os dejetos líquidos como a água oriunda do processo de ordenha ou da criação de suínos pode ser utilizados chorumeiras ou equipamentos de irrigação adaptados para esse procedimento.

 

Cuidados

Estamos avaliando um processo que trabalha como reutilização dos subprodutos, entretanto esses dejetos devem ser usados com avaliação técnica, doses elevadas ao longo dos anos podem levar ao acúmulo de metais pesados no solo, o monitoramento é de suma importância para o sucesso na produção de pastagem, uma super dosagem na adubação orgânica resulta em grande perda de nutrientes que são direcionados principalmente aos recursos hídricos.

Contudo estamos falando dos dejetos subprodutos na cadeia produtiva e não em doses exatas de nutrientes como em uma formula química balanceada exatamente para um determinado cultivo, desta forma o sucesso da adubação orgânica será a sua utilização com apoio na adubação convencional através da compostagem enriquecida com minerais, resultando na produção do composto organomineral equilibrado em nutrientes de acordo com a demanda do sistema de produção.


Conclusão

Devemos considerar que a adubação orgânica advém de um subproduto até pouco tempo disposto no meio ambiente do forma incorreta e altamente danosa, os estudos nos mostraram que estes dejetos contém grande parte de nutrientes que podem ser reaproveitados no processo produtivo, minimizando danos ao meio ambiente e baixando custos de produção.

O mercado produtivo seleciona diariamente os produtores que continuaram crescendo no mercado e sendo competitivos na atividade. Manter atualizados buscar as tecnologias conhecer e avaliar o investimento deve ser uma pratica constante.

Considerando o uso da adubação orgânica podemos colocar na balança como uma tecnologia positiva para a propriedade se estes dejetos forem de fácil acesso, ou mesmo produzidos na própria fazenda, temos um grande ganho ambiental minimizando os impactos da destinação ambientalmente incorreta retornando esses nutrientes na cadeia produtiva a propriedade, reduz o custo com a aquisição dos fertilizantes químicos crescendo o potencial produtivo e competitivo da propriedade.